Arenas construídas para impulsionar o esporte brasileiro passarão para a gestão da empresa do Rock in Rio. A mudança reacende uma discussão que acompanha os Jogos desde 2016.
Quando o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos, um dos argumentos mais utilizados pelos organizadores era o legado. No entanto, a Prefeitura do Rio está perto de concluir os trâmites para conceder a Arena Carioca 1, o Centro Olímpico de Tênis e o Velódromo à Rock World, empresa responsável pelo Rock in Rio. A concessão terá duração mínima de 20 anos e pode enterrar o projetado no sonho olímpico.
Mais do que uma simples mudança administrativa, a operação levanta novamente uma pergunta que acompanha a Rio-2016 desde o encerramento dos Jogos: afinal, o que restou do legado olímpico?
O que aconteceu com as arenas da Rio-2016
A concessão do chamado Complexo das Arenas foi colocada em disputa no fim do ano passado. No início de junho, ocorreu a abertura das propostas. Apenas uma empresa apresentou oferta.
A Rock World propôs o pagamento de R$ 19,5 milhões para assumir a administração dos equipamentos. O contrato prevê uma exploração de pelo menos duas décadas.
O detalhe mais importante, porém, está no modelo escolhido pela prefeitura. A Arena Carioca 1, que recebeu as partidas de basquete durante os Jogos Olímpicos, passa a ser tratada como um espaço multiuso. Na prática, a concessionária poderá receber competições esportivas, mas não terá obrigação de manter uma programação voltada ao esporte.
Essa característica faz com que muitos enxerguem uma repetição do caminho percorrido pela atual Farmasi Arena.
A experiência da Farmasi Arena alimenta preocupações
A antiga Arena da Barra foi construída para os Jogos Pan-Americanos de 2007 e reformada para a Olimpíada de 2016. Durante anos, recebeu competições nacionais e internacionais.
Entretanto, após a concessão à iniciativa privada, o espaço se consolidou como uma das principais casas de espetáculos do país. Os eventos esportivos praticamente desapareceram do calendário.
Por isso, existe um temor entre dirigentes e pessoas ligadas ao esporte olímpico de que a Arena Carioca 1 siga a mesma trajetória.
A preocupação se torna ainda maior porque o ginásio continuava recebendo eventos importantes. Em 2025, por exemplo, foi sede do Mundial de Ginástica Rítmica. Neste fim de semana, abriga o Campeonato Pan-Americano de Ginástica Artística.
O sonho de transformar o Parque Olímpico em um centro permanente nunca se concretizou
As arenas erguidas para a Rio-2016 foram apresentadas como um investimento de longo prazo. A ideia era aproximar o Brasil de modelos adotados em países que utilizam grandes eventos para fortalecer modalidades olímpicas.
Contudo, manter estruturas desse porte sempre foi um desafio financeiro.
Logo após os Jogos, a Prefeitura do Rio tentou criar uma parceria público-privada para administrar os equipamentos. O projeto fracassou. Posteriormente, o governo federal assumiu a responsabilidade por meio da Autoridade de Governança do Legado Olímpico.
Durante a gestão de Jair Bolsonaro, a estrutura foi encerrada. Em 2022, os equipamentos retornaram para a administração municipal. Desde então, a prefeitura buscava uma solução definitiva para as arenas.
Nem mesmo o COB viu viabilidade na operação
O Comitê Olímpico do Brasil chegou a estudar a possibilidade de participar da concorrência. A entidade já administra o Parque Aquático Maria Lenk e mantém o centro de treinamento da ginástica artística em uma área do Parque Olímpico.
No entanto, as contas não fecharam.
Segundo o COB, os custos de operação e manutenção tornavam a iniciativa inviável para uma instituição sem fins lucrativos. Em nota, a entidade afirmou que continuará aberta a futuras parcerias e considera natural a convivência entre atividades esportivas e culturais.
A ausência de outros interessados fez com que a Rock World fosse a única participante da concorrência.
O próprio Parque Olímpico já mudou de perfil ao longo dos anos
Das sete instalações esportivas construídas para a Rio-2016, duas foram desmontadas. A Arena do Futuro, utilizada pelo handebol, e o Centro Aquático temporário deixaram de existir.
Outros equipamentos receberam funções diferentes daquelas inicialmente previstas. A Arena Carioca 2 será ocupada pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro, enquanto a Arena Carioca 3 foi transformada em uma escola municipal.
Esses projetos possuem relevância social e educacional. No entanto, representam uma mudança significativa em relação ao conceito original do Parque Olímpico.
O debate sobre o legado olímpico está longe do fim
É natural que arenas modernas precisem diversificar suas fontes de receita. Shows e eventos culturais ajudam a garantir sustentabilidade financeira e fazem parte da realidade de instalações semelhantes em vários países.
Entretanto, a ausência de contrapartidas esportivas chama atenção. A prefeitura poderia ter incluído no contrato a obrigação de realizar determinado número de competições por temporada. Também seria possível exigir investimentos em escolinhas, centros de treinamento ou equipes voltadas para modalidades olímpicas.
Essas exigências não impediriam a exploração comercial dos espaços. Pelo contrário. Permitiriam conciliar sustentabilidade financeira com o desenvolvimento esportivo.
Dez anos depois da Olimpíada, o Rio continua buscando uma resposta para uma das principais promessas feitas em 2016. Afinal, o legado dos Jogos deveria ser apenas um conjunto de arenas modernas ou um instrumento permanente para fortalecer o esporte brasileiro? A resposta, até agora, permanece em aberto.
