Os 5 problemas que explicam a sexta eliminação seguida do Brasil na Copa do Mundo

Da formação de jogadores às decisões de Carlo Ancelotti, a queda para a Noruega escancarou problemas que a Seleção Brasileira acumula há mais de duas décadas e que seguem impedindo a conquista do hexacampeonato.
A eliminação para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 não foi um acidente. Tampouco pode ser tratada como uma derrota isolada. O Brasil chegou à sexta Copa do Mundo consecutiva sem levantar o troféu e, mais uma vez, deixou o torneio antes da decisão.
Desde o pentacampeonato, em 2002, a Seleção caiu para França (2006), Países Baixos (2010), Alemanha (2014), Bélgica (2018), Croácia (2022) e Noruega (2026). Os adversários mudaram. Os treinadores também. No entanto, alguns problemas permaneceram praticamente os mesmos durante todo esse período.
Parte dessas dificuldades está dentro de campo. Outra parte nasce muito antes, na formação dos jogadores e no modelo de negócios do futebol brasileiro.
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1. O Brasil passou a formar jogadores para vender, não para montar uma Seleção equilibrada
O futebol brasileiro continua revelando talentos em quantidade impressionante. O problema não está na quantidade de jogadores produzidos, mas no perfil deles.
Nas últimas duas décadas, os clubes brasileiros passaram a formar atletas cada vez mais alinhados ao mercado europeu. O objetivo principal deixou de ser construir equipes equilibradas e passou a ser desenvolver jogadores que possam ser vendidos rapidamente por valores elevados.
Hoje, o Brasil produz uma quantidade enorme de pontas rápidos, habilidosos e capazes de atuar em espaços curtos. São jogadores muito valorizados pelos grandes clubes europeus, principalmente da Inglaterra, Espanha e Alemanha.
Por outro lado, posições historicamente fundamentais para a Seleção perderam espaço.
O tradicional camisa 10 praticamente desapareceu das categorias de base. Jogadores responsáveis por organizar o jogo, controlar o ritmo da partida e pensar a construção ofensiva são cada vez mais raros.
O mesmo acontece com os centroavantes.
Durante décadas, o Brasil revelou nomes como Romário, Ronaldo, Adriano e Luís Fabiano. Hoje, a maior parte dos atacantes formados atua aberta pelos lados ou como falsos nove.
As laterais representam outro problema.
É verdade que a escassez de laterais de alto nível não é exclusiva do Brasil. Diversas seleções enfrentam a mesma dificuldade. Ainda assim, chama atenção o fato de um país que revelou Cafu, Roberto Carlos, Júnior e Marcelo chegar a mais uma Copa do Mundo sem donos absolutos para essas posições.
A consequência aparece na própria montagem da Seleção.
Existe excesso de jogadores para atuar pelos lados do campo e escassez justamente nas funções que organizam e equilibram uma equipe.
2. O aumento do número de estrangeiros reduziu espaço para jovens brasileiros
Outro debate que ganhou força após a eliminação envolve o Campeonato Brasileiro.
Desde que a CBF ampliou o limite de estrangeiros relacionados por partida, os clubes passaram a buscar cada vez mais jogadores sul-americanos para compor seus elencos.
Hoje, muitos times utilizam praticamente o limite máximo permitido (hoje são 9).
Não há dúvida de que vários desses atletas elevaram o nível técnico da competição. Argentinos, uruguaios e colombianos foram protagonistas em títulos importantes nos últimos anos.
Entretanto, também existe um efeito colateral. Em muitas situações, clubes deixam de oferecer minutos para jogadores formados em casa e preferem contratar atletas estrangeiros de nível intermediário.
São jogadores que dificilmente chegariam às principais ligas europeias, mas que ocupam vagas que antes serviam como etapa de desenvolvimento para atletas da base.
Isso reduz o tempo de jogo de jovens brasileiros justamente na fase mais importante da formação.
Naturalmente, nem todo estrangeiro contratado representa esse problema. Muitos justificam plenamente o investimento.
A questão é que parte dessas contratações serve apenas para aumentar o elenco, sem entregar um rendimento muito superior ao de jogadores revelados pelo próprio clube.
3. Carlo Ancelotti recebeu um tratamento que dificilmente seria dado a um treinador brasileiro
Poucos treinadores chegam ao futebol com o currículo de Carlo Ancelotti.
Multicampeão da Liga dos Campeões e vencedor nas principais ligas da Europa, o italiano assumiu a Seleção cercado por enorme expectativa.
Essa expectativa, porém, acabou produzindo um efeito curioso.
Durante meses, parte da imprensa e dos torcedores tratou Ancelotti quase como uma solução automática para os problemas da Seleção Brasileira.
A eliminação para a Noruega mostrou que nenhum treinador resolve sozinho questões estruturais.
Além disso, o italiano também cometeu erros que certamente seriam muito mais criticados caso tivessem sido praticados por um técnico brasileiro.
A insistência em jogadores experientes, mesmo quando atravessavam queda de rendimento, foi um dos principais exemplos.
Danilo e Casemiro chegaram ao Mundial bastante contestados. Ainda assim, permaneceram como peças importantes da equipe.
As decisões durante os jogos também geraram críticas.
As substituições pouco mudaram o comportamento do time em momentos decisivos. Contra a Noruega, o Brasil perdeu intensidade justamente na reta final da partida, quando precisava controlar melhor o jogo.
Se um treinador brasileiro tivesse sido eliminado nas oitavas de final apresentando os mesmos problemas de escalação e leitura de jogo, provavelmente desembarcaria no país sob forte pressão e com o cargo ameaçado.
4. O Brasil criou uma expectativa irreal sobre Neymar
Poucos jogadores marcaram tanto uma geração quanto Neymar. Durante mais de uma década, ele carregou a responsabilidade de ser o principal nome da Seleção Brasileira.
O problema é que o futebol mudou, e o próprio Neymar também.
As graves lesões sofridas nos últimos anos reduziram sua sequência de jogos, afetaram sua capacidade física e diminuíram a explosão que sempre foi uma de suas principais características.
Mesmo assim, parte do ambiente criado em torno da Seleção continuou tratando o atacante como um jogador capaz de decidir qualquer partida apenas por entrar em campo.
Contra a Noruega, a realidade apareceu de forma dura.
Antes do Neymar entrar, o Brasil ainda conseguia manter posse de bola e criar algumas oportunidades. Com a entrada, porém, a equipe perdeu intensidade na pressão, diminuiu a capacidade de recomposição e passou a oferecer espaços maiores ao adversário.
Foi justamente nesse período que a Noruega cresceu na partida e marcou os dois gols da classificação. A atuação individual também ficou abaixo do esperado.
Sem ritmo competitivo suficiente, Neymar encontrou dificuldades para acompanhar a intensidade exigida por um jogo de Copa do Mundo.
Nos minutos finais, ainda protagonizou uma discussão com o goleiro norueguês após o pênalti, cena que simbolizou um jogador egolátra.
Mais do que um problema individual, o episódio mostrou como o Brasil permaneceu excessivamente dependente de um ídolo que já não reunia as mesmas condições físicas de anos anteriores.
5. Alguns jogadores chegaram ao Mundial sem condições de disputar uma Copa
Neymar não foi o único atleta que entrou em campo cercado por dúvidas.
Outros jogadores importantes também chegaram ao Mundial vivendo um momento de queda técnica ou física.
Casemiro continua sendo um dos maiores volantes da história recente da Seleção. Entretanto, seu rendimento já não era o mesmo das temporadas de auge.
A intensidade diminuiu, a recuperação física ficou mais difícil e sua influência no jogo passou a ser menor.
Danilo enfrentava situação semelhante.
Mesmo sendo um líder respeitado dentro do grupo, já apresentava dificuldades para acompanhar atacantes rápidos e participar ofensivamente como a posição exige atualmente.
O problema foi insistir neles justamente quando o Brasil iniciava um ciclo que deveria olhar para o futuro.
Cada vaga ocupada por um atleta sem perspectiva de disputar a Copa de 2030 representa uma oportunidade a menos para acelerar o amadurecimento de jogadores mais jovens.
A experiência continua sendo importante em qualquer seleção.
Mas ela precisa caminhar ao lado do rendimento.
Quando o peso do passado passa a falar mais alto do que o desempenho dentro de campo, o risco de repetir erros aumenta.
