Alison quebra recorde mundial nos 400m e quebra tabu de 51 anos do Brasil

Com 45s80 nos 400m com barreiras, brasileiro supera marca histórica de Karsten Warholm e encerra uma espera que vinha desde João do Pulo, em 1975

Alison dos Santos não conquistou apenas mais uma vitória na Diamond League. Nesta quinta-feira (27), em Zurique, o brasileiro correu os 400 metros com barreiras em 45s80, estabeleceu um novo recorde mundial e colocou seu nome em um grupo extremamente restrito da história do esporte nacional.

O resultado encerra uma espera de quase 51 anos sem que um atleta brasileiro registrasse um recorde mundial absoluto em provas de pista e campo. O último havia sido João do Pulo, em 1975. Desde então, o país acumulou medalhas olímpicas, títulos mundiais e grandes nomes no atletismo, mas ninguém havia conseguido alcançar novamente o topo das marcas mundiais dentro de um estádio.

Alison derruba uma das marcas mais impressionantes do atletismo

O recorde anterior pertencia ao norueguês Karsten Warholm. Desde a final olímpica de Tóquio, em 2021, a marca de 45s94 era considerada uma das mais difíceis de ser superada no atletismo moderno.

Alison não apenas quebrou o recorde. Ele reduziu a marca em 14 centésimos e se tornou o primeiro homem da história a completar a prova abaixo de 45s90. Warholm também esteve na corrida e terminou em segundo lugar, com 46s69.

A vantagem construída pelo brasileiro chamou atenção. Piu liderou praticamente toda a prova e cruzou a linha de chegada com ampla margem sobre os principais adversários da modalidade.

O salto de desempenho impressiona até para os padrões de um campeão mundial

A evolução de Alison fica ainda mais evidente quando comparada ao seu próprio histórico. Antes da etapa de Zurique, sua melhor marca pessoal era de 46s29, obtida na conquista do Mundial de Eugene, em 2022.

Isso significa que o brasileiro retirou 49 centésimos do próprio recorde pessoal em uma única corrida. Em provas decididas por milésimos, uma melhora dessa magnitude é extremamente rara entre atletas que já competem no mais alto nível.

O recorde também coroa uma temporada dominante. Quatro dias antes, Alison havia vencido a etapa da Silésia com 46s43, então a melhor marca mundial de 2026.

O Brasil não via algo parecido desde João do Pulo

Para entender a dimensão histórica do feito, é preciso voltar a outubro de 1975. Naquele ano, João Carlos de Oliveira alcançou 17,89 metros no salto triplo durante os Jogos Pan-Americanos da Cidade do México.

O salto melhorou em impressionantes 45 centímetros o recorde anterior e permaneceu como a melhor marca do mundo durante quase dez anos. Desde então, nenhum brasileiro voltou a estabelecer um recorde mundial absoluto em provas de pista e campo.

Durante esse período, o atletismo brasileiro viveu momentos importantes. Joaquim Cruz conquistou ouro olímpico, Maurren Maggi foi campeã olímpica e vários atletas chegaram ao pódio em Mundiais e Jogos Olímpicos. Mesmo assim, a barreira do recorde mundial permaneceu intacta até Alison.

Pela primeira vez, um brasileiro é recordista mundial em uma corrida

Existe outro detalhe que torna a conquista ainda mais especial. Todos os recordes mundiais brasileiros em pista e campo haviam sido obtidos no salto triplo.

Adhemar Ferreira da Silva, Nelson Prudêncio e João do Pulo construíram essa tradição ao longo de décadas. Alison rompeu esse padrão ao se tornar o primeiro brasileiro da história a estabelecer um recorde mundial absoluto em uma prova de corrida.

O feito ganha ainda mais relevância porque aconteceu em uma das modalidades mais competitivas do atletismo atual. Nos últimos anos, os 400m com barreiras viveram uma revolução técnica liderada justamente por Alison, Warholm e o americano Rai Benjamin.

Antes de Alison, poucos brasileiros alcançaram esse patamar

A história dos recordes mundiais brasileiros começou com Adhemar Ferreira da Silva. Bicampeão olímpico do salto triplo, ele registrou cinco recordes mundiais entre 1950 e 1955, consolidando o Brasil entre as potências da modalidade.

Em 1968, Nelson Prudêncio também entrou para essa lista. Durante a final olímpica da Cidade do México, alcançou 17,27m e tornou-se recordista mundial. A marca durou apenas alguns minutos, já que o soviético Viktor Saneyev saltou mais longe logo depois. Ainda assim, Prudêncio passou a integrar o seleto grupo de brasileiros que já tiveram a melhor marca do planeta.

João do Pulo ampliou esse legado em 1975 com um salto que se tornou referência histórica. Agora, mais de meio século depois, Alison recoloca o Brasil nessa relação.

Ronaldo da Costa havia sido o último recordista mundial brasileiro

Existe uma ressalva importante quando se observa a cronologia dos recordes. Embora João do Pulo tenha sido o último em pista e campo, o Brasil voltou a ter um recordista mundial em 1998.

Naquele ano, Ronaldo da Costa venceu a Maratona de Berlim em 2h06min05s. Além de quebrar o recorde mundial, tornou-se o primeiro homem da história a completar a distância abaixo de 2h07.

Por isso, Alison encerra dois jejuns ao mesmo tempo. Ele é o primeiro brasileiro a bater um recorde mundial absoluto no atletismo desde Ronaldo da Costa, há 28 anos, e o primeiro em provas de pista e campo desde João do Pulo, em 1975.

Uma temporada que já entra para a história

O recorde mundial foi a quinta vitória de Alison na Diamond League em 2026. O brasileiro venceu em Xiamen, Oslo, Silésia e também brilhou nos 300 metros com barreiras em Shaoxing.

Aos 26 anos, ele já soma um título mundial, um vice-campeonato mundial e duas medalhas olímpicas. Agora, porém, alcança um patamar diferente na história do esporte brasileiro.

Mais do que vencer corridas ou conquistar medalhas, Alison dos Santos passa a ser o homem que devolveu ao Brasil um recorde mundial no atletismo. Uma marca que o país não via em pista e campo desde 1975 e que parecia cada vez mais distante até a corrida desta quinta-feira em Zurique.

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