Austrália na Ásia, Israel na Europa: os dois nômades do mapa do futebol
Uma seleção trocou de continente por ambição esportiva. A outra foi expulsa por motivos políticos e levou duas décadas para encontrar um novo lar. As histórias de Austrália e Israel revelam como a geografia perde força diante dos interesses do futebol mundial.
Nenhuma seleção representa melhor a lógica particular do futebol internacional do que a Austrália e Israel. Geograficamente, uma pertence à Oceania. A outra, ao Oriente Médio. Nos gramados, porém, a Austrália disputa as Eliminatórias asiáticas e Israel compete na Eurocopa. Por trás dessa aparente contradição existem dois processos completamente diferentes: um de escolha estratégica, outro de exclusão forçada.
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A Austrália trocou de confederação para vencer mais
Até 2005, a seleção australiana disputava a Confederação de Futebol da Oceania, a OFC. O problema não era a qualidade dos Socceroos, e sim a falta de adversários competitivos. Em 2001, durante as eliminatórias para a Copa de 2002, a Austrália goleou Tonga por 22 a 0 e Samoa Americana por 31 a 0, o maior placar já registrado em uma partida internacional masculina de futebol. O domínio regional, no entanto, não garantia vaga direta ao Mundial. A OFC não tinha vaga assegurada, e a Austrália precisava enfrentar uma repescagem intercontinental, geralmente contra um time da Conmebol. Foi assim que caiu diante do Uruguai em 2001 e só garantiu presença na Copa de 2006 batendo os próprios uruguaios nos pênaltis.
Em 2005, depois de negociações entre a Federação Australiana e a AFC, a Confederação Asiática aprovou por unanimidade a entrada do país. A FIFA ratificou a mudança, e em 1º de janeiro de 2006 a Austrália deixou oficialmente a Oceania. O resultado apareceu rápido: desde então, a seleção se classificou para todas as edições da Copa do Mundo, incluindo a de 2026. O presidente da AFC na época, Mohammed Bin Hammam, resumiu o motivo da aceitação afirmando que o desenvolvimento esportivo e econômico do país traria benefícios para toda a confederação.
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Israel foi expulso da Ásia por motivos políticos
A trajetória de Israel é radicalmente diferente. A seleção foi um dos membros fundadores da Confederação Asiática de Futebol, em 1954, e chegou a ser campeã da Copa da Ásia em 1964. O cenário começou a mudar após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Países árabes adotaram a Resolução de Cartum, que previa o não reconhecimento do Estado de Israel, e o boicote se estendeu ao futebol: seleções vizinhas passaram a se recusar a enfrentar os israelenses em campo.
A tensão chegou ao limite em 1974. Uma resolução proposta pelo Kuwait, pedindo a expulsão de Israel da AFC, foi aprovada por 17 votos a 13. Sem confederação fixa, a federação israelense precisou se filiar provisoriamente à Confederação de Futebol da Oceania, disputando dali as Eliminatórias das Copas de 1986 e 1990. Foi um período de nomadismo competitivo, sem uma casa continental definida.
A solução definitiva veio da Europa. Israel passou a integrar competições da UEFA já no início dos anos 1990, tornando-se membro pleno em 1994. Desde então, disputa as Eliminatórias da Eurocopa, ainda sem ter conquistado uma vaga na fase final do torneio continental.
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Duas lógicas, dois resultados diferentes
A diferença entre os dois casos mostra como o sistema de confederações da Fifa funciona mais por critérios de organização e conveniência do que por geografia pura. A Austrália usou um processo formal de transferência, negociado e aprovado por unanimidade. Israel foi alvo de uma exclusão coletiva motivada por conflitos regionais, e precisou de quase vinte anos para conseguir uma filiação estável.
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O impacto competitivo das duas mudanças
Para a Austrália, a troca de confederação elevou o nível dos adversários e, consequentemente, o próprio futebol nacional. Clubes australianos passaram a disputar a Liga dos Campeões da Ásia, criando mais exposição internacional. Já para Israel, a entrada na UEFA trouxe adversários mais fortes, mas também aumentou a dificuldade de classificação, já que a Europa concentra boa parte das principais seleções do mundo.
Um padrão que se repete em outros cantos do mapa
Os casos de Austrália e Israel não são isolados. Ao redor do mundo, outras seleções vivem situações parecidas, vinculadas a confederações que não correspondem à sua localização geográfica, por razões históricas, políticas ou estratégicas. Esse padrão evidencia que, no futebol internacional, fronteiras esportivas raramente coincidem com fronteiras de mapa.
O que fica daqui para frente
A Austrália consolidou sua posição na Ásia e hoje é referência regional, com presença constante em Copas do Mundo. Israel, por sua vez, segue tentando algo que nunca conseguiu: uma vaga na fase final de uma Eurocopa. A próxima janela de Eliminatórias europeias deve mostrar se a seleção, definitivamente europeia no papel desde 1994, consegue romper essa barreira histórica.
