Por que Guiana e Suriname não jogam a Copa América

Guiana, Suriname e Guiana Francesa estão no mapa da América do Sul, mas no futebol pertencem a outro continente. A explicação envolve colonização, isolamento histórico e uma decisão estratégica de décadas atrás.

Abra qualquer mapa-múndi e os três países aparecem dentro do contorno sul-americano. Mas a Conmebol nunca os convocou para uma Copa América. Guiana, Suriname e Guiana Francesa disputam suas eliminatórias na Concacaf, a confederação de América do Norte, Central e Caribe. A geografia diz uma coisa. O futebol diz outra. E o motivo está mais ligado a colonizadores europeus do século XIX do que a qualquer regra recente da Fifa.

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O que a geografia não explica

Os três países ocupam a costa nordeste da América do Sul, vizinhos de Brasil e Venezuela. Ainda assim, nenhum deles disputa as Eliminatórias da Conmebol. A Guiana e o Suriname são membros plenos da Concacaf desde os anos 1960 e 1970. A Guiana Francesa joga torneios regionais da mesma confederação, mas sem ser filiada à Fifa, porque é um departamento ultramarino da França.

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Por que a separação aconteceu

A resposta está na colonização. A Guiana foi colônia britânica até 1966. O Suriname pertenceu aos Países Baixos até 1975. A Guiana Francesa segue sendo território francês até hoje. Esse passado criou laços culturais, comerciais e esportivos muito mais fortes com o Caribe anglófono, neerlandês e francófono do que com os vizinhos de língua espanhola e portuguesa.

Enquanto o restante da América do Sul se organizava em torno da Conmebol, fundada em 1916, essas três nações cresceram olhando para outro lado. O críquete, esporte típico de colônias britânicas, ainda compete em popularidade com o futebol na Guiana. No Suriname, o futebol tem forte influência neerlandesa, a ponto de o país ser conhecido por exportar talentos para a seleção da Holanda.

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Uma decisão estratégica, não geográfica

Quando as federações desses países se organizaram para entrar na Fifa, a escolha pela Concacaf fez sentido esportivo. Disputar vagas contra potências como Brasil e Argentina oferecia pouca chance de classificação a qualquer torneio grande. Na Concacaf, ainda que Estados Unidos e México sejam gigantes, o caminho até competições internacionais parecia mais acessível, com mais seleções de nível técnico semelhante.

Essa lógica se repete em outras partes do mundo: confederações não seguem fronteiras físicas, seguem critérios de organização esportiva, histórico de filiação e, muitas vezes, conveniência política.

O caso ainda mais peculiar da Guiana Francesa

Entre os três, a Guiana Francesa é o exemplo mais extremo. Por ser um departamento ultramarino, ela integra oficialmente o território da França. Isso significa que, nas regras da Fifa, ela não pode ter federação própria reconhecida, já que a França já ocupa essa vaga.

Mesmo assim, a seleção da Guiana Francesa existe e compete. Ela participa da Copa Ouro, da Liga das Nações da Concacaf e de outros torneios regionais como membro associado, sem direito a disputar Eliminatórias para a Copa do Mundo. Já teve campanhas de destaque na Copa Ouro, chegando às semifinais em 2017, um resultado que chamou atenção justamente por vir de uma seleção sem status pleno na Fifa.

O que isso muda na prática

Para o torcedor brasileiro, o efeito é simples: esses três vizinhos nunca aparecerão no caminho da seleção em uma Copa América. Para os próprios países, a divisão trouxe benefícios competitivos, mas também isolamento regional. Equipes de Guiana e Suriname raramente enfrentam Brasil, Venezuela ou Colômbia, mesmo compartilhando fronteira física com esses países.

A repercussão dessa configuração aparece sempre que algum jogador nascido nesses territórios brilha em outra seleção. Suriname, por exemplo, já viu nomes como Georginio Wijnaldum e Memphis Depay, de ascendência surinamesa, vestirem a camisa da Holanda em Copas do Mundo.

O cenário não deve mudar

Não há, hoje, qualquer movimento da Fifa, da Conmebol ou da Concacaf para alterar esse arranjo. A reorganização de confederações é rara e geralmente motivada por interesses esportivos e econômicos das próprias federações, como ocorreu em outros casos pelo mundo. Enquanto Guiana, Suriname e Guiana Francesa seguirem filiadas à Concacaf, a Copa América continuará sendo um torneio só visto de fora por esses três vizinhos sul-americanos.

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